Publicado por: numerobis | 2006-02-07

O Tio Bill na óptica do utilizador-pagador

Entre a imagem do futuro Presidente que olha o país da sua marquise após uma noite vitoriosa e a algazarra instalada porque Bill Gates, o homem mais rico do mundo, um dos maiores filantropos do mundo, se lembrou que existia Portugal e nele veio investir, houve um salto civilizacional.

Numa semana, Portugal atirou-se da marquise de alumínio anodizado, um ícone da arquitectura suburbana dos anos 70, o cantinho roubado à varanda de que o português tanto gosta, para a informática na óptica do utilizador, outro ícone caro em qualquer currículo de qualquer dactilógrafa com pretensões a assessora de um qualquer «inginheiro».

Caído do ciberespaço, qual versão virtual da também virtual aparição de Fátima, Gates ficou com Portugal a seus pés. Claro que ninguém pode desvalorizar um interesse destes por Portugal, muito menos numa altura em que ninguém nos liga patavina, quando nos tornámos um país nada competitivo, acima do 25.º lugar, onde a nossa mão-de-obra custa quatro vezes menos do que a dos países europeus da primeira linha mas onde desgraçadamente somos seis vezes mais caros do que a mão-de-obra de leste, para não falarmos da asiática.

Mas porque gosta tanto de nós o Tio Bill? Porque sim, porque somos giros ou porque acordou um dia e disse «vou dar um totomilhões ao engenheiro do choque tecnológico!». Ou alguém lhe segredou: «Bill, que tal uma esmolinha aos tugas? Sendo europeus e o presidente da Comissão português, talvez lhe façam um abatimento naquela seca da multa por causa do monopólio nas licenças.»

O que é certo é que já não bastava termos de levar com o sistema Windows, agora ainda temos de venerar o Tio Bill como se fosse um Einstein da informática. O que está longe de ser verdade.

O sistema Windows é uma grande vitória não do sistema em si mas do «marketing» e da grande visão de Bill Gates para o negócio. Ele conseguiu internacionalizar o seu sistema em mais de 90 por cento dos computadores de todo o mundo com uma estratégia monopolista. E ganhou.

A explicação é simples: se Bill Gates tivesse construído o primeiro Ford todos nós que comprássemos Ford tínhamos que comprar todos os acessórios Ford, da gasolina ao mais ínfimo parafuso e se ao fim de dois anos ele decidisse mudar o sistema de alimentação do motor, teríamos de lhe comprar uma nova licença para o carro poder andar. Isto é: neste momento, a Microsoft tem na mão os destinos do mundo, se aceitarmos que a rede informática é hoje tão determinante na economia como o petróleo.

Como foi possível triunfar nesta escala um sistema que é falível em termos de segurança ao ponto de o Pentágono ter erradicado a versão XP por considerá-la pouco fiável, um sistema operativo que permite a pirataria, pouco intuitivo na utilização para um comum mortal, desastroso (para não dizer aberrante) do ponto de vista gráfico, com um «browser» para a internet medíocre e, o pior, completamente permissivo a vírus?

É um sistema que não nasceu para ser multimédia, dá-se mal com a imagem e com o som e, sobretudo, tem dificuldade em cruzar as várias plataformas. Fá-lo com custo, imitando agora o sistema Apple de Steve Jobs numa caricatura penosa, onde o sucesso do IPOD foi a prova de que a engenharia é uma abóbora se não tiver a sustentá-la uma forte cultura criativa capaz de estimular uma nova geração de consumidores.

A distracção de Bill Gates relativamente ao desenvolvimento da internet quase lhe foi fatal e permitiu que dois putos tivessem desenvolvido o fenómeno Google com o sucesso que sabemos.

Aqueles carros fabricados no oriente que, para fazer frente aos topos de gama alemães, começam a cromar os pára-choques, a usar jantes vistosas, bancos forrados a pele ou um escape cromado de rendimento, fazem lembrar algumas das soluções que correm no sistema mais popularizado dos computadores pessoais.

Talvez por isto e, sobretudo, pelos custos, muitos governos impuseram na administração outro sistema, o Linux, que é desenvolvido com «software» livre de licenças, com um desempenho notável e custos incomparavelmente mais baixos.

Portugal está na encruzilhada: ou quer estruturas informáticas eficazes, de desempenho acessível , sem portagens virtuais, ou opta por soluções que o vai deixar refém de um sistema e pagá-lo para todo o sempre. Mais um elefante branco.

Bill Gates chegou viu e vendeu. Não saberemos, para já, o que viu em Portugal que não tivesse noutro país europeu. Mas o anúncio de que a sua visita originou a assinatura com o Estado português de contratos de milhões é para já uma evidência.

Quando a filantropia é a palavra-chave, a versão Windows não cracha.
Luiz Carvalho @ Expresso
18:03  3 Fevereiro 2006


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